Ansiedade

Ansiedade: Quando O Alerta Deixa De Se Notar

Repare na sua mandíbula neste momento. Nos ombros também.
É provável que estejam mais tensos do que precisavam de estar para ler um texto. E é provável que já lá estivessem antes de começar a ler, só não tinha reparado.
Não é distração. É o que acontece quando um estado deixa de ser passageiro e passa a ser o ponto de partida.

A Ansiedade Não É O Problema.
A Permanência É.

A ansiedade é uma resposta natural do organismo. Perante algo que interpretamos como exigente ou ameaçador, o cérebro assume que existe uma ameaça e prepara o corpo para reagir, é aquilo a que se chama resposta de luta ou fuga.
E funciona: o coração acelera, a respiração sobe para o peito, os músculos ganham tónus, a digestão passa para segundo plano e a atenção afina-se. Em determinados momentos, isto é útil. É um sistema antigo, eficiente, feito para nos atravessar uma situação difícil.
O que ele nunca foi desenhado para fazer foi ficar ligado durante meses.
E é aqui que a coisa se torna difícil de detetar. Quando o alerta se prolonga o suficiente, deixamos de o sentir como tal. Passa a ser simplesmente como nos sentimos.
Deixamos de dizer "ando tenso" e passamos a dizer "sou assim". Deixamos de dizer "não durmo bem" e passamos a dizer "nunca fui de dormir muito". O cansaço deixa de ser um sinal e passa a ser a linha de base do dia. Os pensamentos que não se desligam à noite tornam-se apenas "a minha cabeça".
O corpo não deixou de dar sinal. Nós é que deixámos de o distinguir do ruído de fundo.

Porquê O Pescoço, Os Ombros E O Estômago, E Não Os Pés

Vale a pena perceber isto, porque explica quase todos os sintomas de uma vez só. E começa num sítio improvável: na forma como respira.
Numa respiração descansada, o trabalho é feito pelo diafragma, um músculo em forma de cúpula que se encontra por baixo dos pulmões. Ele desce, o abdómen expande suavemente, o ar entra. É silencioso e não custa nada.
Em estado de alerta, a respiração torna-se mais curta e sobe para a parte alta do peito. O diafragma perde amplitude, e o corpo recruta músculos auxiliares para o substituir: os do pescoço e os que ligam as costelas superiores à clavícula. São músculos pequenos, feitos para ajudar pontualmente, não para respirar por si o dia inteiro.
Quando isso se prolonga por semanas, chegam os resultados previsíveis:
1. O pescoço e a zona alta dos ombros mantêm-se contraídos, porque, na prática, estão a trabalhar a cada respiração, cerca de vinte mil vezes por dia. Daí a sensação de peso entre as omoplatas ao final da tarde, ou as dores de cabeça.
2. A caixa torácica perde mobilidade, e instala-se aquela sensação de aperto no peito ou de não conseguir encher bem o pulmão. Não é falta de ar, é falta de movimento nas costelas.
3. O diafragma, que perdeu amplitude, deixa de fazer outra coisa que fazia sem darmos por ela: a cada descida, massajava suavemente o estômago e os intestinos, ajudando o trânsito digestivo. Quando esse movimento diminui, o desconforto digestivo aparece, e raramente o associamos à respiração, porque parece um problema completamente separado.
É por isto que se diz que a ansiedade não acontece apenas na cabeça. A mente e o corpo não são dois departamentos: aquilo que sentimos emocionalmente tem tradução física, e essa tradução pode manter-se muito depois da preocupação original ter passado.

O Que Se Pode Fazer?

Não se desliga um estado de alerta por decisão. Se bastasse decidir, ninguém andaria assim.
O que se pode fazer é devolver ao corpo as condições que ele perdeu pelo caminho e olhar para a pessoa como um todo, porque o ombro, o sono e a digestão quase nunca são problemas separados.
A osteopatia trabalha manualmente a mobilidade que se foi restringindo: a caixa torácica, a zona dorsal, o diafragma, o pescoço que anda a fazer o trabalho que não é o dele. Não trata a ansiedade, e não é isso que promete. Mas ao devolver amplitude à respiração e aliviar as tensões que nos podem estar a causar dores ou incómodos, retira ao corpo algumas das formas de manter o alerta a alimentar-se a si próprio.
A naturopatia trabalha outro terreno: alimentação, descanso, ritmo do dia, os hábitos que sustentam o padrão sem que se note. É mais lento e menos espetacular, mas é o que impede o corpo de voltar ao mesmo sítio três semanas depois.

Uma Coisa Que Pode Experimentar Hoje!

Sente-se, ponha uma mão no peito e a outra sobre o abdómen. Respire como respira normalmente, sem corrigir nada, e repare em qual das mãos se mexe.
Se for a de cima, acabou de encontrar o padrão descrito neste artigo no seu próprio corpo.
Isto não resolve nada sozinho, e seria desonesto dizer o contrário. Mas faz duas coisas úteis: recorda ao diafragma um movimento que ele foi perdendo, e mostra-lhe, em menos de um minuto, o quanto o seu corpo está habituado a respirar em alerta. É informação sobre si que não tinha antes de ler isto.

Uma Pergunta Para Levar Daqui

Se chegou até aqui, é provável que se tenha reconhecido em pelo menos uma coisa. Não precisa de fazer nada com isso hoje. Mas repare, ao longo desta semana, em quantas vezes encontra os ombros subidos e tensos sem motivo nenhum, e a que horas do dia acontece.
Se a resposta for "quase sempre", já não é feitio. É um padrão. E os padrões podem trabalhar-se. Talvez valha a pena parar por um minuto e fazer a pergunta mais simples de todas: De que é que o meu corpo está a precisar?
* Nota: a osteopatia e a naturopatia são abordagens complementares de bem-estar e não substituem acompanhamento médico ou psicológico. E reforçamos que sintomas de ansiedade intensos, persistentes ou que interfiram com o dia a dia devem sempre ser avaliados por um profissional.
Se isto lhe soa familiar, uma avaliação personalizada pode ajudá-lo a compreender há quanto tempo o seu corpo anda neste ciclo e o que precisa para sair dele.
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